Aleatoriedades são os impulsos de agarrar emoções, apertá-las como se pudessem se dissolver entre as frestas da pele.
Um sopro de vida coexistindo com a sombra da morte.
Aleatoriedades são os impulsos de agarrar emoções, apertá-las como se pudessem se dissolver entre as frestas da pele.
Um sopro de vida coexistindo com a sombra da morte.
A Torre II
Dentro das montanhas remotas do antigo Império Persa, como um pintor, vou dissecando o mundo com um pincel que escreve.
Esse mundo surge em uma floresta mágica, cheia de escombros de torres caídas, de onde nascem flores de amadurecimento.
De um pântano sombrio, vejo uma flor de lótus cor-de-rosa se erguendo majestosa.
Vou seguindo por caminhos iluminados por lampiões de séculos remotos até encontrar a hospedaria dos peregrinos, no alto da montanha dessa cidade mágica, e, ao ver uma cor de ametista muito brilhante, soube que era lá. Ao chegar, vejo as bruxas varrendo o pátio, levando embora o que já não serve, o que já não fecunda.
Sou levada para meu quarto, com uma pequena cama arrumada lindamente pelas fadas que cuidam do nosso acolhimento. Ao lado, uma mesa de cabeceira com uma vela acesa num castiçal e um cálice contendo uma bebida roxa.
“Só beba quando o sino tocar”, elas disseram, e me deixaram sozinha.
Numa cadeira de madeira rústica coloquei alguns pertences, tirei minha capa pesada e sentei na cama, pensando quando seria esse sinal e que bebida seria essa.
Já tinha em mente que essa expedição seria bem solitária e não encontrei outros peregrinos por todo o caminho, mas sabia que estavam lá, como eu, à espera de alguma coisa que nos tirasse desse torpor de viver.
Imersa nesses pensamentos, escuto as badaladas do sino. Doze.
Percebi que era meia-noite. Peguei minha taça.
Tinha um cheiro de terra, de raiz, de aterramento.
O líquido estava quente, viscoso, repugnante, mas eu bebi tudo de uma vez.
No final, tinha um sabor agridoce que era agradável.
Fui ficando sonolenta e deitei na cama para tentar dormir um pouco antes de qualquer coisa,que eu não sabia o que,pudesse acontecer.
De repente, sinto meu corpo se transformar numa fênix que levanta voo e segue para o cume de uma montanha perdida entre os desfiladeiros desse império.
Percebo então que esse desfiladeiro é a minha própria mente, que me leva a redemoinhos internos, me exaure. Sobrevoo e parece que vejo minha vida inteira: todas as pessoas que passaram por mim, todos os abandonos, as rejeições, os amores que não quis, as paisagens, as esbórnias, as reclusões.
Percebo que a fênix começa a construir um ninho nessa montanha e sinto aromas maravilhosos vindos dos gravetos que ela pega. Era o conjunto de aromas mais inebriante que já havia sentido.
Então ela se deita sobre seu ninho, e eu sinto que começo a queimar e me entrego. Me deixo. Me permito.
O fogo me envolve com suas labaredas dançantes e juntos seguimos nesse baile frenético.
Percebo as cinzas que me envolvem, que me compõem. Sinto o vazio. Adormeço nesse renascimento.
Quando acordo, estou no quarto da hospedaria, embaixo de uma coberta felpuda, e vejo a chuva batendo na minha janela.
No canto do pequeno quarto, um fogo aceso me aquece e reaviva minha experiência.
Penso no vazio de deixar para trás culpas que não são minhas, vidas que não me pertencem.
Abraço esse novo espaço, me aconchego e durmo mais um pouco.
Quando acordo, a tarde já tinha chegado. Vejo uma bandeja com pão, algumas frutas, um jarro com água fresca.
Me alimento um pouco e volto para meu sono, e dentro dele vejo uma luz amarela muito intensa.
Olho para essa luz e vejo o sol me acenando, prometendo que voltará amanhã.
Vejo seus raios querendo ficar mais um pouco, brincar nesse céu vermelho do entardecer.
Sinto que é hora de partir.
Visto minhas roupas pesadas, minhas botas e minha capa. Sorrio.
Desço a enorme escada em caracol que me leva para um pátio onde flores desabrocham felizes depois do banho de chuva.
Numa mesa farta, os peregrinos se encontram, comem e bebem, brindam às suas descobertas.
Sento no lugar reservado a mim e levanto meu copo.
Olho para cima e vejo a fênix. Nos olhamos com cumplicidade. Ela segue seu rumo.
Eu começo a integrar a experiência com meus companheiros.
Sabemos que o trabalho continua, mas sentimos que nossa capa já não pesa tanto.
Reservamos esse momento para celebrar.
(Outubro 2025)
Quando abri a porta da sala, entrei no tronco daquela árvore. Uma escada em caracol me levou para baixo, e logo comecei a sentir o cheiro do bolo que minha tia Cinira fazia. Fiquei com água na boca!
Encontrei uma chave misteriosa no meu bolso e abri outra porta, que me levou a um jardim. Muitas flores, árvores enormes, caminhos largos e peregrinos descansando. Vi ruínas de torres caídas, várias torres, ao redor delas, flores tímidas começavam a nascer. Senti tanto orgulho de cada torre que me deu vontade de tatuar uma!
Continuei caminhando à beira de riachos com o som cristalino da água, tão gostoso de ouvir… No fundo de um deles, uma cachoeira enorme se erguia, onde Orixás se banhavam e brincavam. Sobre uma pedra, estava o frasco com minha poção mágica. Abri a tampa e senti o aroma… abracei o frasco como quem segura uma memória feliz e, em seguida, bebi lentamente, aproveitando cada instante daquela bebida doce. Tampei o frasco e o coloquei de volta sobre a pedra.
Segui para trás da cachoeira e entrei em uma caverna de rocha firme. No seu trono estava a Sacerdotisa. Ela tocou um sino e me chamou. Sentei-me aos seus pés, como uma criança que quer saber de tudo, mas não perguntei nada. Ela apenas disse para confiar na minha intuição, deixar o coração comandar e sair um pouco da mente. Criar a partir da emoção.
“Não se importe com julgamentos”, ela falou. “Siga seu coração. Sua emoção sabe o que é certo e errado. Só tenha cuidado para não se perder nela. Não manipule a emoção a seu favor. Se for um não, escute; se for um sim, escute. Seja fiel a ela, e ela será fiel a você.”
Ficamos ali juntas por mais um tempo. Quis tocar a lua aos pés dela, mas não pude. Ela disse que a intuição não se toca, apenas se sente. Achei bonito. Então ela tocou o sino novamente e disse que eu podia seguir e voltar sempre que precisasse.
Saí da caverna e voltei para perto dos Orixás. Entrei na água com eles, brincamos e rimos. Chamei todos os peregrinos para essa dança mágica, e eles vieram trazendo suas dores transmutadas em pequenos cristais que guardavam no bolso para não esquecerem o porquê de sua jornada.
(Agosto 2025)